“É nosso papel separar o mundo adulto do mundo infantil”: leia a fala do psicólogo Luiz Coderch

 

Em 2017, a Secretaria de Assistência Social do Estado do Amazonas (Seas) lançou uma campanha contra a erotização precoce das crianças que teve enorme repercussão nas redes, chegando aos quase 500.000 compartilhamentos. A ação teve alcance nacional e trouxe para o debate este tema que pais e professores ainda têm muita dificuldade em lidar.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o psicólogo Luiz Coderch, que participou da campanha, deu a sua visão sobre este tema tão delicado:

 

“Uma criança, com idade entre cinco e nove anos, entra no período de socialização, de desenvolvimento afetivo, e é justamente nessa fase da vida que elas chegam à escola, se desvinculam das relações maternas e paternas e começam a fazer amizades. A questão é que a ideia de namoro causa confusão em uma criança que ainda está aprendendo o que é amizade. É nessa fase que ela deve cultivar as primeiras relações fora de seu núcleo familiar.

Quando se introduz a palavra namoro nesta fase, a palavra ganha um significado diferente do significado da palavra para o adulto. O namoro, para os adultos, é uma preparação para a vida a dois, uma vida íntima, etapas para se juntar. E para uma criança, o namoro não existe, é uma amizade mais forte, o coleguinha preferido. E não podemos pular etapas importantes; a brincadeira infantil nesse momento é um aprendizado para a vida adulta.

A criança não tem entendimento, aporte emocional e cognitivo para entender esses relacionamentos (namoros). E quando elas chegarem na fase de namoro, talvez essas relações não sejam saudáveis. Antes de introduzir a fase do namoro, a amizade deve ser enfatizada, aprendida e respeitada. Caso ela pule essa etapa, talvez possa não ter aprendido as nuances de um relacionamento saudável na vida adulta.

Carinho, que se aprende na infância, é uma troca. Atenção é uma troca. E aos cinco anos, a criança sai da fase egocêntrica e passa por uma fase na qual compartilha experiências e isso é um aprendizado. Claro que não dá para definir e dizer que isso é a única causa da violência doméstica. Mas, sim, um dos fatores que levam a isso é quando a criança perde, ou não aprende, a habilidade de se relacionar.

 

Imagem da campanha do Governo do Amazonas contra o namoro na infância

 

Não há uma “receita de bolo” quando o assunto é educação dos filhos, mas é necessário abordar com atenção e cuidado (a questão da erotização precoce) dentro de um ambiente saudável. A primeira atitude a se tomar é não tocar no assunto namoro com crianças, nem deixá-las em ambientes que tenham certa erotização. Não se pode colocar uma criança em um ambiente onde tenha esse tipo de relacionamento, pois ela não entende isso. Muitos pais não percebem e permitem, por exemplo, que seus filhos assistam filmes e novelas não adequadas.

Ainda na infância, o ideal é falar sobre amizade e os laços formados nesta primeira fase. Em vez de dizer que o amiguinho ou amiguinha é “namoradinho”, é preciso conversar sobre esses novos laços sociais das crianças, que são nada mais que amizades. É interessante os pais explicarem as questões que envolvem um relacionamento de amizade, falar sobre respeito, solidariedade, valores, tratar o outro com carinho. Que a identificação maior com certos amiguinhos, na verdade, é amizade.

Em casos que requerem mais atenção, os responsáveis podem procurar um profissional para abordar determinados temas, como psicólogo, psicopedagogo e pedagogo.

Assim, a campanha não visa a criar regras de comportamento e muito menos dar uma fórmula ideal para tratar o tema, o que se aborda é a conscientização dos pais em relação à atenção que eles dão aos filhos.

Criança precisa imaginar, brincar. E a gente precisa deixar crianças livres para serem crianças. Elas têm a vida toda para serem adultas.”

 

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Entrevista original realizada por Luiza Belloni e publicada no Portal HuffPost em 19/04/2017.

 


BRUNO ASSIS FONSECA
Formado em design gráfico, é autor/ ilustrador de livros infantis e trabalha com comunicação voltada para o ensino. Adora dar oficinas de artes para crianças e adolescentes mas o seu tempo mais precioso é dedicado à sua filha Aurora.
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