“Falta ler histórias na escola”: entrevista com o escritor Mia Couto

(Foto: Bel Pedrosa/Divulgação)

O escritor e biólogo moçambicano António Emílio Leite Couto, mais conhecido como Mia Couto em entrevista para a revista Nova Escola contou um pouco de sua trajetória escolar e o que o inspirou a se tornar escritor.

Leia alguns trechos e se encante com as experiências de Mia Couto:

“Eu era um aluno sofrível, eu tirava a nota que bastava para passar. A escola não me seduzia, não me encantava. O que eu aprendi nela foi que faz falta esse lugar de sedução. A escola, para mim, era um lugar onde eu aprendia a não estar onde eu estava. Era uma espécie de exercício de exílio. Eu ficava junto a uma janela para ver o mundo e a vida, porque me parecia que a escola era muito cinzenta e pouco divertida.”

E após uma história com um professor, Mia mudou totalmente sua visão sobre o âmbito escolar, entenda:

“Eu sempre conto essa mesma história. Foi de um professor que não deu uma aula, e sim uma lição – que é uma coisa diferente. Ele nos mandou fazer uma redação que seria apresentada à turma. No dia seguinte, como se fosse um aluno, ele trouxe um caderno e sentou-se em uma das nossas cadeiras. Ele era um homem enorme, muito grande. Ficou ali todo desajeitado. Converteu-se num menino, como nós, numa criança – e com as mãos tremendo, leu a redação que tinha feito em casa, à noite, como se fosse um de nós. O texto dele chamava-se As Mãos da Minha Mãe. E as mãos da mãe dele também eram as mãos da minha mãe: ele falava de mãos marcadas pelo trabalho, pelo sofrimento, pela vida e como ele gostava daquelas mãos marcadas. Eu tinha talvez uns 9 ou 10 anos, mas nunca me esqueci disso. Esse foi o momento em que eu pensei que a escola fazia algum sentido.”

M.C, além de ter sido aluno se tornou um exímio escritor e atualmente, algumas de suas obras são lidas em escolas. Sobre esse fato ele acrescenta:

“É claro que eu tenho um certo orgulho de que meus textos possam servir às escolas, mas meu receio é justamente esse de servir. A literatura não tem uma função no sentido de ser um material escolar. Ela deve ensinar os meninos a terem uma certa indisciplina mesmo, uma certa desobediência, a viajarem, a saírem da escola. A literatura tem que ser aquela janela em que eu me encostava na escola para olhar a vida e o mundo. Eu gostaria de ser mais lido aqui no Brasil, mas com a segurança de que os meninos tenham uma relação de prazer com a leitura, que não seja uma imposição.”

(foto: AFP PHOTO/FRANCOIS GUILLOT)

No diálogo, Mia Couto aborda a importância da figura do professor e que o educador precisa gerar gosto de leitura nos alunos:

“Falta ler histórias na escola. A aprendizagem da Língua Portuguesa e daquilo que deve ser o gosto pela leitura tem que ser pensado para que a ligação com o livro chegue ao aluno não apenas como uma fonte de saber, mas como fonte de recolha de prazer absoluto. O professor tem de ser um contador de histórias. Eu fiz isso, agora já adulto, como escritor. Eu contava uma história, que estava dentro de um livro, uma história que fosse muito interessante, que fosse realmente instigadora. Depois de fazermos daquilo um objeto de brincadeira, de brincar com o texto, eu apresentava o livro. Há uma separação do aprender com o brincar. Quando toca a sineta e o professor diz: “Agora é o recreio, é o momento de brincar”. Ou: “A brincadeira ficou lá fora, agora cá dentro da sala é outra coisa”. Essa separação é muito pouco pedagógica porque os meninos aprendem brincando.”

Ainda, na entrevista, ele conta mais sobre suas inspirações e planejamentos de escrita das suas obras:

“Eu me apaixono por uma certa ideia, o núcleo de uma história. Primeiro, eu construo os personagens e esses personagens têm que ter uma vitalidade, um poder de sedução que faça com que eles persistam dentro de mim e ganhem dimensão.”

E ai, curtiu um pedacinho da entrevista? Para ver mais acesse e leia na íntegra. Link da entrevista: Clique aqui

 

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