“Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento”- entrevista com o pensador Edgar Morin

Edgar Morin é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês. O pensador defende que a maior urgência no campo de ideias não é rever doutrinas e métodos, mas elaborar uma nova concepção do próprio conhecimento. 

Em entrevista ao site Fronteiras do Pensamento, o sociólogo expõe sua opinião sobre a educação atual e o modelo ideal de ensino.

“A figura do professor é determinante para a consolidação de um modelo “ideal” de educação. Através da Internet, os alunos podem ter acesso a todo o tipo de conhecimento sem a presença de um professor. Então eu pergunto, o que faz necessária a presença de um professor? Ele deve ser o regente da orquestra, observar o fluxo desses conhecimentos e elucidar as dúvidas dos alunos. Por exemplo, quando um professor passa uma lição a um aluno, que vai buscar uma resposta na Internet, ele deve posteriormente corrigir os erros cometidos, criticar o conteúdo pesquisado. É preciso desenvolver o senso crítico dos alunos.”

Sobre os problemas do modelo de ensino atual dos países ocidentais, Edgar Morin acrescenta:

“O modelo de ensino que foi instituído nos países ocidentais é aquele que separa os conhecimentos artificialmente através das disciplinas. E não é o que vemos na natureza. No caso de animais e vegetais, vamos notar que todos os conhecimentos são interligados. E a escola não ensina o que é o conhecimento, ele é apenas transmitido pelos educadores, o que é um reducionismo.”

Quando questionado sobre o conceito de conhecimento, Edgar Morin explica:

“Todo conhecimento é uma tradução, que é seguido de uma reconstrução, e ambos os processos oferecem o risco do erro. Existe outro ponto vital que não é abordado pelo ensino: a compreensão humana.

O grande problema da humanidade é que todos nós somos idênticos e diferentes, e precisamos lidar com essas duas ideias que não são compatíveis.”

Ainda, quando argumentado sobre a Literatura e as Artes ocuparem espaço no currículo de escolas, E.M fala:

“Para se conhecer o ser humano, é preciso estudar áreas do conhecimento como as ciências sociais, a biologia, a psicologia. Mas a literatura e as artes também são um meio de conhecimento.

Os romances retratam o indivíduo na sociedade, seja por meio de Balzac ou Dostoiévski, e transmitem conhecimentos sobre sentimentos, paixões e contradições humanas. A poesia é também importante, nos ajuda a reconhecer e a viver a qualidade poética da vida. As grandes obras de arte, como a música de Beethoven, desenvolvem em nós um sentimento vital, que é a emoção estética, que nos possibilita reconhecer a beleza, a bondade e a harmonia. Literatura e artes não podem ser tratadas no currículo escolar como conhecimento secundário.”

Por fim, sobre o sistema brasileiro de ensino, o sociólogo descreve:

“O Brasil é um país extremamente aberto a minhas ideias pedagógicas. Mas, a revolução do seu sistema educacional vai passar pela reforma na formação dos seus educadores. É preciso educar os educadores. Os professores precisam sair de suas disciplinas para dialogar com outros campos de conhecimento. E essa evolução ainda não aconteceu. O professor possui uma missão social, e tanto a opinião pública como o cidadão precisam ter a consciência dessa missão”

 

Leia a entrevista completa no portal Fronteiras do Pensamento. Entrevista realizada por Andrea Rangel/O Globo.

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